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A porta aberta

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Você não sabia, mas eu te amava enquanto ouvia falar de outro. Eu até pensei em me declarar, mas era com tanta paixão que o definia, a forma como o admirava, dava pra ver seus olhos brilhando. E era com tanto ardor como na mesma medida lhe tacava a lenha e depois o defendia. Era seu pior juíz, seu maior advogado. Eu, num fogo cruzado, não sabia o que fazer, na maioria  das vezes apenas ouvia.  Às vezes você se culpava, e eu me enraivecia, querendo que  soubesse como era mais que aquilo, como merecia mais.   Eu não conseguia entender porque o amava tanto, mas só podia aceitar. Coisa de vocês. Eu era apenas um espectador naquilo tudo. Estranho, às vezes ria das suas quedas, me ensoberbecia nas falhas dele, cheguei até a desejar que se ajeitassem de vez para conseguir minha alforria. Mas não, você sempre procurava meus braços nas noites em que ele não estava. E naquele meio amor, todo errado, era como se a porta sempre estivesse aberta, mas não o suficien...

Pombinhos

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Eles eram um casal bem grudento, Elora e Kailan, os apaixonados da rua 7. Entre a vizinhança, eram conhecido os feitos da parceria, como na vez que ele fez cair milhares de pétalas sobre a casa, no dia do aniversário dela, ou quando ela se demetiu do emprego de dez salários mínimos na maior empresa da cidade, porque o trabalho estava os afastando. O pedido de casamento foi feito ao vivo, num talk show, assistido por um milhão de pessoas. A festa de casamento teve cinco mil convidados, durou uma semana inteira e há boatos que era tanta comida e bebida que nem os olhos mais aguçados conseguiam percorrer toda a extensão das mesas. Nos votos dele, contou aos convidados como a conheceu: ela aeromoça desesperada, com o piloto do avião desacordado, ele o herói da pátria, saindo da sua poltrona na classe econômica para a cabine e pousando a aeronave. Nos votos dela, a história de como seus pais eram contra o relacionamento e como tiveram que fugir, vivendo como nômades por um ano, passand...

Onde o ônibus nunca vinha

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Tinha um cabelo cacheado com cheiro de praia, alguns fios espirais que caíam nos olhos, redemoinho que leva pra Oz, olhos de quem vive a espreita da surpresa. Tinha um cabelo cacheado que rugia como Aslam, toca pro País das Maravilhas. Eu investia sem medo e ela fazia que sim com a cabeça, ria dos galanteios, pegava na minha cabeça e fazia cafuné. Mas não conseguia ir mais longe, como ir? Ela também parecia ter a menor vontade que isso acontecesse. Se dava aos poucos, sem medo e sem trégua, se deliciava com o êxtase que me causava. E mantinha a porta aberta, para outros galanteios, outros amores de esquina. É que naqueles olhos de concha cabiam-se muitas vidas, vários estados de si. O reservado pra mim era a chuva, de tarde, no ponto de ônibus do ônibus que só passava no sábado. Enquanto me fazia cafuné, falava das desavenças com o padrasto, da vontade de ir para outro país. E o cheiro do asfalto molhado ficava muito bom, misturado ao cheiro de praia do cabelo dela, naquele ponto ...

A Dona Cristalina

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Dona Cristalina estava preocupada com seu neto Kailan fazia tempo. 20 anos nas costas e nenhuma namorada, sequer sinal de que já houvesse beijado. Dona Cristalina tinha começado cedo suas paqueras, fugindo de casa aos 12 anos com seu Dario, na época com 25, para depois de um ano conhecer Marciano, com quem ficou mais três anos até aparecer o Carlos, com quem ficou junto só dois meses e voltou pro Dario, até conhecer o Paulo... eram tanta indas e vindas na vida daquela senhora hoje aposentada que estranhava a quietude do neto, ainda mais nesses tais tempos modernos. Kailan não era de sair pra festa nem nada. Não bebia e não fumava. Sua vida era faculdade, celular e vídeo game. E o pior era que o rapaz nem parecia ligar pra isso, estava sempre ouvindo suas músicas, a cabeça longe mas nunca parecia triste. Cristalina até tentava conversar com a filha: "Isso não é normal Jandira", mas ela só dizia: "Deixa o garoto mãe". A velha se preparava pro pior. Lia livros sob...

Táticas para um dia de chuva

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IMVU. Primeiro tinha que escolher um bom nome, sugestivo mas sem ser vulgar: Sarado703. Agora a aparência: moreno da cor do pecado, sem camisa, músculos 120%, altura 70%, olhos verdes, um pouco de barba, cabelo estilo anime, calça caindo, sapato da moda, tatuagens no pescoço, braços e tórax. Estava feito, um poço de sedução e desejo chamado Sarado703.  A sala perfeita: não muito pequena onde todos ficassem amontoados um no outro e não muito grande que não se pudesse vê-la inteira nem com o zoom no mínimo, além de demorar pra carregar. Nada de motéis ou lugares semelhantes, porque das duas uma: ou a garota que está lá é jovem demais ou vai ficar com outros trocentos assim que ficar off. Foi pro Bar Indie. Primeiro sentava, soava misterioso, analisava o local. Não podia ir chegando em uma e correr o risco de tomar fora. Assim, todas as outras que estivessem no quarto também lhe dariam fora, por parecer galinha, ou por não quererem o resto de ninguém. Mulher é um bicho vaidos...

A mulher da sua vida

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Manhã bem cedinha, e ela dando sopa, desacompanhada, com uma bolsa enorme, seria até pecado não roubar. A culpa era do sistema, com as novelas que enalteciam o crime, os políticos ladrões que deram o exemplo, as empresas insanas por lucros e seus patrões demoníacos que não lhe empregavam só pelo motivo de ter parado na quarta série. Que culpa tinha se ir soltar pipa era muito mais interessante. Ganhava um trocado sendo goleiro de peladas, mas nada que lhe permitisse ir pro Hot Park nas férias. Com dinheiro de agiota, investiu em uma moto. Potente para lhe garantir entradas e saídas rápidas. Arma não tinha, só uma faca que escondia no bolso, e era mais que suficiente. Só atacava nos polos do dia, mulheres, geralmente com mais de 30 anos. Elora, a mulher da data em questão, tinha 27, mas nada que tenha impedido de ser abordada. Agressivo como tinha que ser, causou pânico imediato. Na transferência de bens, um par de brincos, 50 reais, duas entradas para o cinema e três bombons. Falt...

Troca de favores

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-Então, e agora? Elora e Kailan eram da mesma sala, sétimo "C". Tinham combinado há quase um mês que iam se beijar. Mas beijo de verdade, de língua. A ideia veio num recreio. Elora estava comendo bolacha. -Ei, Elô, me dá uma? -Ata, você vive trazendo bolo e nunca me deu. -Você nunca pediu. -Mas eu ficava em cima e você devia oferecer. -Tá bom, o que você quer em troca? -Hmm... Deixa eu pensar... -Lá vem. -Ajuda no trabalho de matemática. -Em qual questão? -Acho que na 2 e a 3, talvez a 7 e a 10, ou a 15. -Quer ajuda no trabalho todo por uma bolacha? -Três então. Pega. -Tem que ter outra coisa. -E o que você quer? -Um beijo. Ela ficou calada com uma expressão estranha, até que ele decidiu falar: -Ah, esquece isso, foi bobagem. -Não, eu quero. O rosto dele brilhou: - Quer? -Sim, mas não pode ser no colégio.  Marcaram num parque, onde quase ninguém ia. Tinha que ser em dia de chuva, exigência da Elora. O Kailan não entendeu mas resolveu não contrariar. Três horas da tarde...