A Dona Cristalina
Dona Cristalina estava preocupada com seu neto Kailan fazia tempo. 20 anos nas costas e nenhuma namorada, sequer sinal de que já houvesse beijado. Dona Cristalina tinha começado cedo suas paqueras, fugindo de casa aos 12 anos com seu Dario, na época com 25, para depois de um ano conhecer Marciano, com quem ficou mais três anos até aparecer o Carlos, com quem ficou junto só dois meses e voltou pro Dario, até conhecer o Paulo... eram tanta indas e vindas na vida daquela senhora hoje aposentada que estranhava a quietude do neto, ainda mais nesses tais tempos modernos.
Kailan não era de sair pra festa nem nada. Não bebia e não fumava. Sua vida era faculdade, celular e vídeo game. E o pior era que o rapaz nem parecia ligar pra isso, estava sempre ouvindo suas músicas, a cabeça longe mas nunca parecia triste. Cristalina até tentava conversar com a filha: "Isso não é normal Jandira", mas ela só dizia: "Deixa o garoto mãe". A velha se preparava pro pior. Lia livros sobre como aceitar parentes homossexuais, ia em palestras, treinava no espelho a frase:"Eu te aceito do jeito que é", mas quando o rapaz percebeu que o assunto era esse, no dia que finalmente tomou coragem para puxar o tema com ele, só riu na cara dela: "Da onde você tira essas coisas vó?"
Bom, não podia reclamar do neto. Nunca havia a respondido, era muito bem educado, faltava um ano pra se formar em direito. Jogava bola e truco, gostava de rap, não podia ser gay, ou podia? Talvez só estivesse se focando nos estudos, ou então quisesse ser padre, ou namorasse escondido. Um dia ele estava distraído e foi pro banho, pegou o celular dele. O bendito celular. Pena que a alegria não demorou muito até ver que tinha senha. Dia do aniversário dele, da mãe, dela própria, nome do cachorro, curso e faculdade que fazia, eu sou gay, que raio de senha seria essa?
O que ela não entendia mesmo era como alguém podia passar tanto tempo assim sem nem querer experimentar do amor. Mesmo velha e tendo feito várias burradas na vida, não se arrependia de nada, e queria que o garoto experimentasse aquilo, virasse homem. Por que ela sabia o peso que uma mulher faz na vida de um homem, e vendo o garoto tão novo alheio a tudo isso, era como se estivesse desperdiçando sua juventude. Será que nunca ia ser bisavó? Ou pior ainda, o que ela mais temia mesmo, era não fazer parte da vida dele, e não conhecer de verdade aquele homem que um dia trocou as fraldas, e vira crescer.
Um dia foi buscar ele na faculdade junto da mãe. Meio-dia e parecia estar tendo uma festa no pátio. Música alta, gente gritando e dançando, todo mundo pintado. "É dia de alguma coisa?", perguntou pra filha. No meio da muvuca tinha gente bebendo e jogando confetes pro alto, um cara vestido de carneiro em cima de uma mesa se atirando na multidão em polvorosa, garotas que saíam de bolos com vestidos míni e se esfregavam em todos os rapazes que viam na frente. Era uma putaria danada, e o Kailan, escorado em um canto da parede, olhando tudo sem jeito, até ver o carro e entrar nele. Realmente tem algo errado com esse menino, pensou a senhora.
Os anos se passaram, Kailan se formou, montou o próprio escritório, mas nunca apresentava uma garota para a família. Agora eram 30 anos nas costas. A avó, já mais pra lá do que pra cá, só vivia deitada, se queixando de dores, e era o neto quem mais cuidava dela. Um dia estavam só os dois em casa, e quando ela teve um início de infarto, o impediu de ligar para os médicos: era hora de aceitar seu destino. Então encarou o neto fixadamente, no fundo dos seus olhos, e lhe fez a pergunta derradeira: "Você namora escondido?" Ele já estava começando a chorar, e sem conseguir responder, só fez que sim com a cabeça. "Qual o nome?" "E-e-elora". Elora, repetiu ela sorrindo, enquanto fechava os olhos.

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