Troca de favores


-Então, e agora? Elora e Kailan eram da mesma sala, sétimo "C". Tinham combinado há quase um mês que iam se beijar. Mas beijo de verdade, de língua. A ideia veio num recreio. Elora estava comendo bolacha. -Ei, Elô, me dá uma? -Ata, você vive trazendo bolo e nunca me deu. -Você nunca pediu. -Mas eu ficava em cima e você devia oferecer. -Tá bom, o que você quer em troca? -Hmm... Deixa eu pensar... -Lá vem. -Ajuda no trabalho de matemática. -Em qual questão? -Acho que na 2 e a 3, talvez a 7 e a 10, ou a 15. -Quer ajuda no trabalho todo por uma bolacha? -Três então. Pega. -Tem que ter outra coisa. -E o que você quer? -Um beijo. Ela ficou calada com uma expressão estranha, até que ele decidiu falar: -Ah, esquece isso, foi bobagem. -Não, eu quero. O rosto dele brilhou: - Quer? -Sim, mas não pode ser no colégio. 


Marcaram num parque, onde quase ninguém ia. Tinha que ser em dia de chuva, exigência da Elora. O Kailan não entendeu mas resolveu não contrariar. Três horas da tarde. No colégio, mal andavam se falando, ninguém podia dar bandeira. E no trabalho de matemática, ele não só ajudou como fez tudo, e caprichou tanto que teve que fazer o dele às pressas do dia de entregar. E sempre que trazia bolo, dava pra ela. Andava aéreo, só pensando nisso. E agora ela estava ali na sua frente. Pela primeira vez sem uniforme, mil vezes mais bonita. 

-Heim? -O que? -E agora Kai? O que a gente faz? -Ah... Foi difícil pros seus pais te deixarem vir? -Não muito. Falei que ia na casa de uma amiga. E você? -Eles não estavam em casa. -Ah sim. -Tirou nota boa em matemática? -Oito (risos), você é um gênio mesmo. E você? -Tirei seis. -Nossa. E não reclamou com a professora? -Ah, deixa isso pra lá. Você tem cachorro? -Tenho um vira-lata, três anos. -Como se chama? -Damião. -Bom nome (risos). -Qualquer dia vai lá em casa ver ele. -Tá bom. -Você já fez isso antes? -O que? -Beijar né. -Sim, quer dizer... não, e você? -Sim ou não? -Não. -Eu também. -Por que? -Ah, acho que tava esperando a hora certa. -Você sabe como faz? -Eu vi uns videos. Tem que girar a língua lá dentro. -E o que faz com as mãos? -Eu não sei. Pega no meu cabelo. Ele coloca as mãos no cabelo dela. -Assim? Ela ri: -É... E como vamos saber quando acaba? -Quando a gente quiser ué. -E se você quiser acabar e eu não? -Você pode pedir pra eu continuar. -Eu não vou pedir. Vai ter que saber. -E como vou saber? -Não sei ué. Você que é o gênio aqui. -Então andou vendo vídeos? -Só pra ter uma ideia de como é. -Por que não olhou seus pais? -Nunca vi eles se beijando. -E os filmes? -Ah, mas lá é técnico, não é de verdade. -E qual a diferença? -Eu não sei. Você não contou pra ninguém né? -Não. -E não é pra pegar na minha bunda. -Eu não vou pegar. E morder seu lábio? -Isso eu deixo. Você escovou o dente né? -Três vezes. Ela sorri: -Você é bem fofo sabia. -E você é muito linda. Ele lhe entrega uma flor. -Pra você. -Nossa Kai, obrigado. Os dois ficam se olhando um tempo. -Você me beijaria se eu não tivesse te ajudado no trabalho de matemática? -Ah, eu nunca pensei nisso. -Pensa agora ué. -Acho que sim. -E depois disso a gente vai ser namorado? -E o que vai mudar? -A gente vai andar de mãos dadas na escola. Ela pega na mão dele, entrelaça os dedos e fica balançando. -Você não acha ruim d'eu não ter peitos? -Eu não ligo. -A Vanessa já tem. -Eu gosto de você assim. -Eu pensei muito nisso nos últimos dias, você deve me achar uma boba. -Sério? Eu também pensei. -E se você não gostar? -Eu vou gostar Elô. -Será que a gente vai lembrar disso a vida toda? -Acho que sim. Por que queria que fosse na chuva? -Me pareceu mais romântico. Silêncio. Ela: -O que vai fazer nas férias? -Acho que vou pra minha avó no sul. -Eu posso ir com você? -Teria que ver se minha mãe ia deixar. -Como você consegue ser tão inteligente? -Ah, você é inteligente também. Já vi vários desenhos seus, são ótimos. -Você viu? Não lembro de te mostrar. -Eu ficava espiando nas aulas. Você desenha, tem um sorriso lindo, é ótima pra conversar, vai poder ser o que quiser. -Mas eu sou bem medrosa também. -Está com medo agora? - Um pouco. 

A passos lentos, ele se aproxima. As pernas cambaleando, o coração acelerado. Ficam se olhando. Sente  o cheiro dela, natural, bom. Ela coloca a cabeça em seu ombro e então pode sentir sua respiração. Ele passa a mão no seu cabelo. Sorriem. Começa a chover.





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