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Mostrando postagens de setembro, 2017

A mulher da sua vida

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Manhã bem cedinha, e ela dando sopa, desacompanhada, com uma bolsa enorme, seria até pecado não roubar. A culpa era do sistema, com as novelas que enalteciam o crime, os políticos ladrões que deram o exemplo, as empresas insanas por lucros e seus patrões demoníacos que não lhe empregavam só pelo motivo de ter parado na quarta série. Que culpa tinha se ir soltar pipa era muito mais interessante. Ganhava um trocado sendo goleiro de peladas, mas nada que lhe permitisse ir pro Hot Park nas férias. Com dinheiro de agiota, investiu em uma moto. Potente para lhe garantir entradas e saídas rápidas. Arma não tinha, só uma faca que escondia no bolso, e era mais que suficiente. Só atacava nos polos do dia, mulheres, geralmente com mais de 30 anos. Elora, a mulher da data em questão, tinha 27, mas nada que tenha impedido de ser abordada. Agressivo como tinha que ser, causou pânico imediato. Na transferência de bens, um par de brincos, 50 reais, duas entradas para o cinema e três bombons. Falt...

Troca de favores

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-Então, e agora? Elora e Kailan eram da mesma sala, sétimo "C". Tinham combinado há quase um mês que iam se beijar. Mas beijo de verdade, de língua. A ideia veio num recreio. Elora estava comendo bolacha. -Ei, Elô, me dá uma? -Ata, você vive trazendo bolo e nunca me deu. -Você nunca pediu. -Mas eu ficava em cima e você devia oferecer. -Tá bom, o que você quer em troca? -Hmm... Deixa eu pensar... -Lá vem. -Ajuda no trabalho de matemática. -Em qual questão? -Acho que na 2 e a 3, talvez a 7 e a 10, ou a 15. -Quer ajuda no trabalho todo por uma bolacha? -Três então. Pega. -Tem que ter outra coisa. -E o que você quer? -Um beijo. Ela ficou calada com uma expressão estranha, até que ele decidiu falar: -Ah, esquece isso, foi bobagem. -Não, eu quero. O rosto dele brilhou: - Quer? -Sim, mas não pode ser no colégio.  Marcaram num parque, onde quase ninguém ia. Tinha que ser em dia de chuva, exigência da Elora. O Kailan não entendeu mas resolveu não contrariar. Três horas da tarde...

Valquíria e eu

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Sentado logo a sua frente, um ser humano da espécie feminina. Kailan  não havia tido muito contato com aquele animal exótico, sabia que assim como ele, precisavam se alimentar e fazer suas necessidades. Ah, e choravam assistindo romances. Mas aquela era de uma raça rara, dessas que se você visse em algum aplicativo de paquera, juraria que era fake. Era o tipo certo pra se apresentar pra família, passar inveja nos amigos, andar por aí de mãos dadas, sorridente e de cabeça erguida. De se fazer suicidar com o término, de inspirar o lado artístico em qualquer babaca.  Mas era justamente por ser tudo aquilo, que o intimidava. Estava sozinha, pensava em se aproximar. Mas talvez só estivesse esperando o namorado, uma amiga, ou justamente estivesse ali pra ficar sozinha. Vai que ela dava o bote? E também, devia haver caras muito mais musculosos e sarados do que ele no seu pé, não tinha a mínima chance.   Podia falar do tempo, mas de cara ia ver quão entediante era. Po...

Sentimento nas vias urbanas

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Como é difícil isso das marchas, aquele câmbio parecia ter vida própria. "Elora, passa pra segunda", "Elora, a marcha não entrou", "Você não pode ligar o carro sem que esteja no neutro", "Antes de desligar, você desengata", "Elora, isso não é segunda, é quarta". "Vou comprar um carro automático, só pra não me aborrecer assim", respondia ela. Passava noites pensando em como fazer a baliza, o momento em que se para de pressionar a embreagem e vai para o acelerador, o freio em cada esquina, que devia ser pressionado gradativamente.  A tão sonhada carteira era fruto de muitas economias, e simbolizava independência. O fim do ônibus, do táxi, das caronas. Carro era sinônimo de poder. E já tinha passado a época do chofer. A mãe e a avó muito medrosas, tinham deixado as notícias impedirem tal feito, no máximo carrinho de bate-bate. Moto também não, deixa ela para os assaltantes. O pai,sempre com os exames em dia, não ultrapassava...

Borboletas no estômago

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Kailan era mágico, dos bons. Em toda cidade que ia, era a atração principal do circo, motivo de todas as apresentações serem lotadas. Ganhava do domador de leões, do palhaço, do malabarista, do trapezista. Hábil com as cartas (por isso sempre se dava bem no pôquer), transformava um seis de espadas em um valete de copas como ninguém. Desaparecia, se teletransportava, levitava, lia mentes.  Mas o que mais lhe agradava mesmo era serrar e unir de novo sua assistente de palco. Elora, com seu sorriso angelical, era a distração perfeita para qualquer mágico. Os machos de plantão suspiravam com a beleza da mulher. As crianças ficavam apreensivas pela vida da garota, e as mulheres invejavam aquelas belas pernas, a propósito, da outra assistente na caixa. Ah, se vissem a dela, a inveja triplicaria. Talvez fossem aqueles olhos, que ela direcionava a ele pouco antes da proeza, ciente de que tudo ficaria bem. Como se com ele, pudesse aceitar ser aprisionada numa câmara de tortura de ág...

Virando pipa

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Um dia você está bem. Está jogando "Rumo ao Estrelato", pensando em ganhar sua quinta bola de ouro e se igualar ao Messi, pensando se é melhor se transferir pro Manchester City ou continuar na Juventus. Está rindo do nada, de uma piada aleatória que se lembra do "Barbixas", querendo que amanhã chegue logo, para poder comer sucrilhos no café ou qualquer coisa do tipo. Mas aí, uma bendita atualização de status muda tudo. É de Elora, de quem podia ter apagado o número. Contato salvo na página de amigos, porque não se acompanha de um coração depois do nome como outrora. O telefone é mudo, vive no silencioso porque som de notificação incomoda. Mas nesses novos tempos, de nada adianta essas coisas. Ela está lá, com aquele sorriso convidativo e aquele online que não se finda. E  a bendita atualização do status.  Eram duas pizzas, uma Pepsi, uma Coca-Cola e os dizeres: "Vocês também tem o melhor namorado do mundo? Que manda pizza pra vocês? Porque eu sim....