Pombinhos
Eles eram um casal bem grudento, Elora e Kailan, os apaixonados da rua 7. Entre a vizinhança, eram conhecido os feitos da parceria, como na vez que ele fez cair milhares de pétalas sobre a casa, no dia do aniversário dela, ou quando ela se demetiu do emprego de dez salários mínimos na maior empresa da cidade, porque o trabalho estava os afastando. O pedido de casamento foi feito ao vivo, num talk show, assistido por um milhão de pessoas. A festa de casamento teve cinco mil convidados, durou uma semana inteira e há boatos que era tanta comida e bebida que nem os olhos mais aguçados conseguiam percorrer toda a extensão das mesas.
Nos votos dele, contou aos convidados como a conheceu: ela aeromoça desesperada, com o piloto do avião desacordado, ele o herói da pátria, saindo da sua poltrona na classe econômica para a cabine e pousando a aeronave. Nos votos dela, a história de como seus pais eram contra o relacionamento e como tiveram que fugir, vivendo como nômades por um ano, passando por mais de vinte países. Longo choro de ambos, e depois para alguns que estiveram na festa, o maior beijo de toda a história da humanidade, seja em tempo de duração ou em troca de saliva. A lua de mel foi no Caribe. Água cristalina e desafiadora combinava com eles.
Era um casal mais doce que doce de batata doce. Quase impossível ver um e não ver o outro junto, sempre colados, menos de um centímetro do corpo do outro, rindo de algo ou se beijando. Quando saíam com amigos, era sempre um desconforto para quem ficava de vela, mesmo quando aos pares. Simplesmente não se importavam com a companhia, continuavam no mundinho deles, se agarrando e trocando carícias, às vezes trocando meia dúzias de palavras fora da bolha por mera gentileza. E ao casal amigo que tentasse competir em tamanho sentimentalismo, restava a frustração com a constatação da derrota. Eram incomparáveis.
Os vizinho tentavam escutar pela parede, alguma briga ou centelha de esperança de que fossem humanos. Nada. Se ouviam algo do outro lado era "eu te amo", "não consigo viver sem você", "não me abandone jamais". Participaram de um jogo de casal na televisão onde um tinha que acertar perguntas sobre o outro, e foram os primeiros a gabaritar as questões. As mulheres suspiravam por um romance como o deles, os homens odiavam Kailan. A história rendeu até filme. Roteiro da Elora. E os dois se interpretando. Em todas as salas onde a produção era veiculada, pessoas choravam e se aborreciam na mesma proporção. Não é possível uma coisa dessa, diziam os incrédulos.
Alguns pensavam: Quem sabe fosse coisa de começo, que com o tempo na vida de casado, iriam perder aquele fogo. Se passaram 25 anos, tiveram três filhos, e ainda assim continuavam andando agarrados, não dando bola pra terceiros, pintando o nome do outro no céu, fazendo serenatas. Os moradores da rua 7 contrataram a Rubi, moça mais linda do bairro, para dar em cima do Kailan. Não só levou um fora como passou a noite toda ouvindo sobre como ele tinha se casado com a melhor mulher do mundo. Investigaram a vida de ambos e encontraram uma mulher que conheceu Elora no ensino fundamental, mostrou fotos, e eles quase não podiam acreditar que aquela era mesmo ela, sem o marido do lado. Disse-lhes que era calada, tinha problemas com os pais, sonhava em viajar o mundo, nunca deu bola para nenhum rapaz da escola. Pior que a história batia.
Tempos depois, ele se afastou da cidade por uma semana, e as especulações começaram: Estariam se divorciando? Agressão? Amante? Bebida? Mas era só a mãe doente do outro lado do país. Quando voltou, abatido e cabisbaixo, ele e a mulher se abraçaram no aeroporto por longos minutos. Ele chorava no ombro dela, lhe segurava no cabelo. Ela passava a mão em suas costas, chorava junto, dizia que tudo ia ficar bem. Não precisavam explicar a situação para se entenderem. E além disso, parecia que estavam sem se ver há muito mais tempo do que realmente era. Efeito colateral do amor. Droga das mais pesadas.
Mas quando um homem da rua 7 foi largado pela mulher, alegando que devia encontrar o verdadeiro amor mágico, só conseguiu culpar o casal grudento. Bebeu a tarde inteira, até ir bater na casa de Kailan e com uma arma na mão, sem esperar que ele sequer respondesse, puxou o gatilho. Quando isso aconteceu, descobriram que na mesma hora, Elora em seu trabalho, tinha um ataque fulminante e morria de ataque cardíaco. Foi aí que pararam de duvidar e reconheceram que realmente, aquele era o casal mais apaixonado do mundo. Pra alguns, meiguice demais enjoa. Pra eles, era combustível.

Mas quando um homem da rua 7 foi largado pela mulher, alegando que devia encontrar o verdadeiro amor mágico, só conseguiu culpar o casal grudento. Bebeu a tarde inteira, até ir bater na casa de Kailan e com uma arma na mão, sem esperar que ele sequer respondesse, puxou o gatilho. Quando isso aconteceu, descobriram que na mesma hora, Elora em seu trabalho, tinha um ataque fulminante e morria de ataque cardíaco. Foi aí que pararam de duvidar e reconheceram que realmente, aquele era o casal mais apaixonado do mundo. Pra alguns, meiguice demais enjoa. Pra eles, era combustível.

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