Borboletas no estômago
Kailan era mágico, dos bons. Em toda cidade que ia, era a atração principal do circo, motivo de todas as apresentações serem lotadas. Ganhava do domador de leões, do palhaço, do malabarista, do trapezista. Hábil com as cartas (por isso sempre se dava bem no pôquer), transformava um seis de espadas em um valete de copas como ninguém. Desaparecia, se teletransportava, levitava, lia mentes.
Mas o que mais lhe agradava mesmo era serrar e unir de novo sua assistente de palco. Elora, com seu sorriso angelical, era a distração perfeita para qualquer mágico. Os machos de plantão suspiravam com a beleza da mulher. As crianças ficavam apreensivas pela vida da garota, e as mulheres invejavam aquelas belas pernas, a propósito, da outra assistente na caixa. Ah, se vissem a dela, a inveja triplicaria.
Talvez fossem aqueles olhos, que ela direcionava a ele pouco antes da proeza, ciente de que tudo ficaria bem. Como se com ele, pudesse aceitar ser aprisionada numa câmara de tortura de água chinesa. Era a rainha que faltava no seu baralho. E aquele ato de separá-la e depois uni-la de novo, como as andorinhas que voltaram, como a velhice, como os Guns N' Roses. Era o dono de cada átomo e tecido daquele corpo, que os combinava e recombinava como bem queria, o motivo para que cada fatia sua estivesse no seu devido lugar, o único homem no mundo capaz de fazê-la inteira.
Cada vez mais inventava ensaios, só para poder apreciar mais da sua musa. Ela perguntava sobre alguns números em que não participava, e ele prontamente detalhava como era feito, dificultando a execução só para realçar seu trabalho. "Ai Kailan, você é tão talentoso. Devia se apresentar no mundo todo." E então ele conhecia uma nova mágica, maior que as de Houdini ou Copperfield: borboletas no estômago, coração acelerado, mente embaralhada, pernas bambas. Às vezes, sonhava com um novo truque, da troca instantânea de roupas, mas depois que ele abaixava o pano, ela estava nua.
Nos cafés das cidades em que iam, se divertiam com a vida nômade e a fama breve. Falavam mal do palhaço, que era mal educado, shippavam o engolidor de espadas e a trapezista. Por influência dela, nunca mais tirou coelhos da cartola ("coitado dos bichinhos"). Ela falava como achava o francês charmoso e como era distante dos irmãos, ele tentava lhe convencer que a pipoca com capuccino era a melhor do mundo, e falava de como a mágica chegou na sua vida quando criança, num natal através de um tio e uma moeda.
Mas foi em um dia de chuva, quando soube que Elora tinha ido embora, que soube como era isso de ser partido ao meio. Ia ser atriz em alguma peça de teatro, protagonista ainda. Bem que podia ter se despedido, pensava. E ele, tão acostumado a recombinar suas células, tentava recombinar novamente, para que ela pudesse então se materializar, bem ali na sua frente.

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