Sentimento nas vias urbanas

Como é difícil isso das marchas, aquele câmbio parecia ter vida própria. "Elora, passa pra segunda", "Elora, a marcha não entrou", "Você não pode ligar o carro sem que esteja no neutro", "Antes de desligar, você desengata", "Elora, isso não é segunda, é quarta". "Vou comprar um carro automático, só pra não me aborrecer assim", respondia ela. Passava noites pensando em como fazer a baliza, o momento em que se para de pressionar a embreagem e vai para o acelerador, o freio em cada esquina, que devia ser pressionado gradativamente. 

A tão sonhada carteira era fruto de muitas economias, e simbolizava independência. O fim do ônibus, do táxi, das caronas. Carro era sinônimo de poder. E já tinha passado a época do chofer. A mãe e a avó muito medrosas, tinham deixado as notícias impedirem tal feito, no máximo carrinho de bate-bate. Moto também não, deixa ela para os assaltantes. O pai,sempre com os exames em dia, não ultrapassava os 80 por hora. Ela queria ser diferente, atravessar o Brasil em quatro rodas, do Oiapoque ao Chuí, de repente morar em um trailer. Já havia decorado dezenas de placas para a prova escrita, que cone podia pará-la agora? 

E tinha outro ponto: Kailan, o professor. "Você precisa sentir a máquina, fazer parte dela. Não pode ter medo, mas também não pode contar com a sorte, só vai ter a carteira quando dominar esse carro." Nunca gritava ou a insultava, cobrava, mas de um modo tão particular que a fazia até desejar as críticas. Era casado, tinha dois filhos, a barba sempre aparada. Às vezes quando Elora perdia o controle, coloca a mão no volante, em cima da dela. 

-Por que você nunca se casou Elora? -Ah, você sabe, homem anda difícil de achar. -Poxa, se eu tivesse te achado uns dez anos atrás. -E o seu casamento, como está? -Nada demais, a gente mal anda se falando, no começo era tanto amor... -E você aprendeu a dirigir fácil? -Na verdade eu penei um pouco, acredita? Mas depois que você pega a manha não tem erro. -Por que não se pode buzinar nas provas? -Acho que é pra terem mais um motivo de te reprovarem e ganharem mais grana.

Um dia de chuva, faltavam duas semanas para a prova dela. O próximo aluno tinha desmarcado e ele estava livre, então só ficaram quietos no carro, olhando o limpador de para-brisa funcionar. Ela ajustou o assento até quase ficar deitada, ele colocou música no automóvel. Já na terceira faixa, a encarou um tempo e depois soltou: "Sabe que eu estou na maior vontade de beijar sua boca?" Ela ficou estática um tempo, depois soltou com sorriso malicioso "Você entende do ponto da embreagem, e do ponto G?" Ela passou na prova. Ele, continua casado.

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