Valquíria e eu

Sentado logo a sua frente, um ser humano da espécie feminina. Kailan  não havia tido muito contato com aquele animal exótico, sabia que assim como ele, precisavam se alimentar e fazer suas necessidades. Ah, e choravam assistindo romances. Mas aquela era de uma raça rara, dessas que se você visse em algum aplicativo de paquera, juraria que era fake. Era o tipo certo pra se apresentar pra família, passar inveja nos amigos, andar por aí de mãos dadas, sorridente e de cabeça erguida. De se fazer suicidar com o término, de inspirar o lado artístico em qualquer babaca. 


Mas era justamente por ser tudo aquilo, que o intimidava. Estava sozinha, pensava em se aproximar. Mas talvez só estivesse esperando o namorado, uma amiga, ou justamente estivesse ali pra ficar sozinha. Vai que ela dava o bote? E também, devia haver caras muito mais musculosos e sarados do que ele no seu pé, não tinha a mínima chance. 



Podia falar do tempo, mas de cara ia ver quão entediante era. Podia tentar ser engraçado, mas a falta de um lado humorístico só faria com que soasse um palhaço. Podia lhe fazer um elogio, mas aí ia parecer um desses conquistadores de quinta, que assobia pra qualquer garota que passa na rua. E se falasse de livro ou filme então, aí é que estava perdido: conhecendo tão pouco em qualquer uma dessas artes, como falar pra ela que passava seu tempo livre assistindo novela e jogando vídeo game? 



Estava ficando louco. Pensou em dizer que quando a viu, sentiu algo que jamais sentira, como se fossem almas gêmeas. Tinha que ser direto, não podia perder tempo, fazer ela dizer sim antes de perceber a burrada que estava fazendo. Podia sugerir que ela só ficasse em casa, que ele ia bancar ela, lhe presentear toda semana. Toda semana não, todo dia. E ela podia namorar outros, e a ele nem precisava beijar. Só dizer que era sua. 



Ah, se ela soubesse das festas que ele foi e pra esconder a tristeza bebeu tanto que foi parar no hospital. Da vez que pegou sua lista de contatos e ligou pra todas as garotas: gordas,  magras, de 20 a 50 anos, de blackpower a uma que estava com câncer, até levar fora de cada uma delas e ainda apanhar do namorado de uma. Ou a vez que pagou uma garota de programa só pra lhe fazer uns elogios, que ele tinha escrito de antemão. 



Tinha que ser ali, não havia oportunidade melhor. Talvez fosse a última chance que o destino lhe dava. Era ela. Tinha que ser ela. Talvez falasse de tudo e ela ainda sorrisse dizendo que o achava fofo. Olha lá, ela ajeitando o cabelo. Quem sabe viu que ele está olhando e agora quer jogar charme. Talvez tivesse algum defeito que facilitasse as coisas, fosse míope, tivesse piolho, se chamasse Valquíria. E aí ele dizia que achava um grande nome e se beijavam ali mesmo. 



Um desses beijos de cinema. As pessoas iam tirar foto e iam aparecer nos jornais, o casal mais apaixonado de todos os tempos. Ganhavam na loteria e iam de cruzeiro para uma lua de mel em Paris. Teriam cinco filhos, ela ia cuidar da alimentação dele com refeições balanceadas e lhe ensinar a dançar, ia conhecer os amigos dela e teriam várias noites agitadas mundo afora. A Valquíria está coçando o nariz, li o que isso significa em algum lugar. Acho que é o primeiro estágio no rito do acasalamento.

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