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Valquíria e eu

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Sentado logo a sua frente, um ser humano da espécie feminina. Kailan  não havia tido muito contato com aquele animal exótico, sabia que assim como ele, precisavam se alimentar e fazer suas necessidades. Ah, e choravam assistindo romances. Mas aquela era de uma raça rara, dessas que se você visse em algum aplicativo de paquera, juraria que era fake. Era o tipo certo pra se apresentar pra família, passar inveja nos amigos, andar por aí de mãos dadas, sorridente e de cabeça erguida. De se fazer suicidar com o término, de inspirar o lado artístico em qualquer babaca.  Mas era justamente por ser tudo aquilo, que o intimidava. Estava sozinha, pensava em se aproximar. Mas talvez só estivesse esperando o namorado, uma amiga, ou justamente estivesse ali pra ficar sozinha. Vai que ela dava o bote? E também, devia haver caras muito mais musculosos e sarados do que ele no seu pé, não tinha a mínima chance.   Podia falar do tempo, mas de cara ia ver quão entediante era. Po...

Sentimento nas vias urbanas

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Como é difícil isso das marchas, aquele câmbio parecia ter vida própria. "Elora, passa pra segunda", "Elora, a marcha não entrou", "Você não pode ligar o carro sem que esteja no neutro", "Antes de desligar, você desengata", "Elora, isso não é segunda, é quarta". "Vou comprar um carro automático, só pra não me aborrecer assim", respondia ela. Passava noites pensando em como fazer a baliza, o momento em que se para de pressionar a embreagem e vai para o acelerador, o freio em cada esquina, que devia ser pressionado gradativamente.  A tão sonhada carteira era fruto de muitas economias, e simbolizava independência. O fim do ônibus, do táxi, das caronas. Carro era sinônimo de poder. E já tinha passado a época do chofer. A mãe e a avó muito medrosas, tinham deixado as notícias impedirem tal feito, no máximo carrinho de bate-bate. Moto também não, deixa ela para os assaltantes. O pai,sempre com os exames em dia, não ultrapassava...

Borboletas no estômago

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Kailan era mágico, dos bons. Em toda cidade que ia, era a atração principal do circo, motivo de todas as apresentações serem lotadas. Ganhava do domador de leões, do palhaço, do malabarista, do trapezista. Hábil com as cartas (por isso sempre se dava bem no pôquer), transformava um seis de espadas em um valete de copas como ninguém. Desaparecia, se teletransportava, levitava, lia mentes.  Mas o que mais lhe agradava mesmo era serrar e unir de novo sua assistente de palco. Elora, com seu sorriso angelical, era a distração perfeita para qualquer mágico. Os machos de plantão suspiravam com a beleza da mulher. As crianças ficavam apreensivas pela vida da garota, e as mulheres invejavam aquelas belas pernas, a propósito, da outra assistente na caixa. Ah, se vissem a dela, a inveja triplicaria. Talvez fossem aqueles olhos, que ela direcionava a ele pouco antes da proeza, ciente de que tudo ficaria bem. Como se com ele, pudesse aceitar ser aprisionada numa câmara de tortura de ág...

Virando pipa

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Um dia você está bem. Está jogando "Rumo ao Estrelato", pensando em ganhar sua quinta bola de ouro e se igualar ao Messi, pensando se é melhor se transferir pro Manchester City ou continuar na Juventus. Está rindo do nada, de uma piada aleatória que se lembra do "Barbixas", querendo que amanhã chegue logo, para poder comer sucrilhos no café ou qualquer coisa do tipo. Mas aí, uma bendita atualização de status muda tudo. É de Elora, de quem podia ter apagado o número. Contato salvo na página de amigos, porque não se acompanha de um coração depois do nome como outrora. O telefone é mudo, vive no silencioso porque som de notificação incomoda. Mas nesses novos tempos, de nada adianta essas coisas. Ela está lá, com aquele sorriso convidativo e aquele online que não se finda. E  a bendita atualização do status.  Eram duas pizzas, uma Pepsi, uma Coca-Cola e os dizeres: "Vocês também tem o melhor namorado do mundo? Que manda pizza pra vocês? Porque eu sim....